sábado, 22 de janeiro de 2011

É isso... iniciando lógica e linguagem (pelo menos o essencial)

Pelo que vi nos comentários deste blog, recebi de e-mails e em outras redes, a galera parece ter compreendido bem minhas motivações: não são provar algo, mas discutir lógica e linguagem do dia-a-dia, tendo como mote principal o que as pessoas falam sobre deus e religião, seja para informar ou convencer. Sendo assim, a segunda explicação que darei, introduzindo conceitos e exemplos bem concretos da nossa experiência diária de uso da lógica, está postada agora no sentido de também denunciar e mostrar alguns incômodos trazidos no linguajar da maior parte dos religiosos. Vamos lá...

Há dois assuntos fundamentais que vejo em muitos cursos de lógica, mas que ficam dispersos no conteúdo como um todo. É importante que sejam compreendidos, antes de saber o que é uma indução, uma falácia e os modos de raciocínio, dois tópicos básicos:

1) O que é uma persuasão e uma declaração
2) A diferença entre uma declaração e uma asserção (comentarei em outro post)

1) O que é uma persuasão e uma declaração

Persuadir (convencer) as pessoas implica no mínimo alguém a ser persuadido, algo a ser feito ou entendido e alguém que persuade.

Se alguém diz:

"É preciso acreditar em Deus", pode estar querendo persuadir, mas não necessariamente está declarando um fato do mundo.
Mas se diz simplesmente "Ai, meu Deus", pode estar apenas reclamando de algo.
Se diz "Meu Deus", pode mostrar espanto.
Se diz "Pelo amor de Deus", pode estar fazendo um apelo ou ameaça. Nesse caso pode até estar tentando persuadir como empregado em frases semelhantes a "Pelo amor de Deus, pare de me perturbar!", mas não da forma lógica adequada.

Assim, persuadir implica convencer, mas não necessariamente através de um conjunto de expressões linguísticas, partindo-se de um conjunto de afirmações para se chegar a uma conclusão. Se alguém quer me persuadir, dizendo "Se você não acreditar em Deus, vai pro inferno" está procurando convencer de modo semelhante ao ladrão que diz "Se não me der a bolsa, eu te mato". Essas duas afirmações são formas de convencer mas não se baseiam em mostrar um encadeamento de frases para se chegar a uma conclusão; baseiam-se apenas em ameaça. Por outro lado, na primeira frase "É preciso acreditar em Deus", se o religioso falar isso e, em seguida não apenas ameaçar, mas desenvolver um conjunto de outras frases expressas linguisticamente de modo a chegar a uma conclusão com outra pessoa, estará usando da lógica de forma adequada.

Enfim, usar a lógica implica convencer ou persuadir, mas não é só isso; é preciso que haja um encadeamento do raciocínio expresso na língua sem o uso de apelos e ameaças, mas através de declarações, que são afirmações sobre coisas existentes no mundo.

É interessante o quanto religiosos procuram argumentar, utilizando não só de ameaças, mas distorcendo expressões de espanto como se fossem declarações reais sobre o mundo. Por exemplo, o ateu vê uma imagem inusitada de um mundo cheio de tecnologia e computação gráfica (como no filme Nosso Lar, baseado em um livro de Chico Xavier) e diz "Meu Deus". Em seguida, alguém metido a sabidão fala "Agora você acredita em Deus". Esse uso das expressões dos outros por parte de religiosos, se não for de má fé, só pode ser de uma ignorância sobre a linguagem tão sem igual, que não considera o óbvio: também quando nos espantamos e dizemos outras coisas, através de um palavrão, não estamos invocando o palavrão mencionado.

No próximo post, falarei sobre persuasão, declaração e o que as difere de uma asserção. Porém, é importante, no momento, que possamos refletir sobre algumas frases corriqueiras e compreender o que elas nos dizem na maioria dos contextos de interação. Após as frases abaixo, há alguns comentários sobre se elas são declarações ou não e como funcionam no nosso dia-a-dia.

1) "Prometo dizer a verdade, nada mais que a verdade, em nome de Deus"

2) "Amar a Deus sobre todas as coisas"

3) "Deus existe"

Comentários:
1) Essa frase não é uma declaração. É apenas uma promessa. Se depois, a pessoa não falou a verdade, o que se verifica são simplesmente expressões que não identificam fatos correspondentes no mundo real em afirmações posteriores, mas esta frase em si não é qualquer declaração sobre o mundo; é um juramento de como a pessoa se comportará. Temos também mais uma estratégia de persuadir religiosos a falarem em uma instituição jurídica diante de um tribunal, e de outras pessoas que representam a sociedade, do que a garantia de que obteremos a verdade da pessoa que vai falar. Até porque, sejam essas pessoas religiosas ou não, sempre ocorrem mentiras, deturpações, enganos, ilusões etc.

2) De modo muito claro o que temos aqui não é uma declaração, mas uma ordem. Aquele que acredita em Deus e na Bíblia deve obedecer esta ordem incontestavelmente. No cotidiano, mesmo havendo esse pressuposto, é comum que pessoas religiosas falem sobre deus, mas demonstrem mais amor no se dia-a-dia a várias outras coisas. A persuasão é originada da autoridade que é atribuída à Bíblia, o "livro de deus", no qual estão os dez mandamentos e este é o primeiro. Na vida real, as práticas variam muito, pois se fala que todos os dez mandamentos devem ser obedecidos, mas alguns como o de "não tomar o santo nome em vão", "guardar domingos e festas" ou "não cobiçar a mulher do próximo" são relativizados e esquecidos de acordo com a sociedade e a cultura local. De todo modo, muitos religiosos interpretam que se você falar "Meu Deus!" poderá estar invocando o nome santo em vão. É mais uma ignorância, misturando declarações com exclamações, como já foi falado anteriormente.

3) Aqui temos uma declaração, mas se ela é verdadeira ou falsa, se a verdade ou a falsidade dela pode ser investigada ou argumentada logicamente são tópicos que veremos na próxima postagem. Nesse caso, a persuasão poderá vir com uma ameaça posterior ou uma tentativa de argumentar e mostrar indícios que provem a verdade da afirmação no mundo real.

Espero que nesta postagem tenha ficado claro como funcionam as declarações e as persuasões... abaixo algo do que vamos falar sobre asserções (declarações com um valor de verdade) e como religiosos tentam persuadir com argumentos utilitaristas:

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

É isso... por que sem deus?

Neste blog, vou falar da importância da possibilidade de não existir deus e, principalmente, do quanto tem sido incômoda, grosseira, estúpida e irracional a maioria das atitudes dos religiosos. Não estou aqui para provar nada em relação a existência de deus. A questão aqui é posta no plano material, humano, visível e sensível do qual qualquer um de nós parte, seja um crente em deus ou não.

Esta minha posição não é uma revolta, mas uma constatação. "Ter que" acreditar em um deus é muito impositivo. Mas por que "sem deus"? Há muitas respostas e os recursos que trarei aqui para discutir serão de análises, na maior parte das vezes simples, do linguajar do dia-a-dia e de uma lógica básica. A primeira questão é: por que temos que acreditar nesta lógica única, tratando-se no caso da visão monoteísta cristã?

Acreditar faz com que alguma coisa exista? E papai-noel quando acreditado por uma criança? E os deuses de outras religiões nos quais não acreditamos? Por que só a nossa religião é que, acreditada, faz com que essa entidade divina tenha alguma existência?

Falar, dizer, escrever faz com que algo exista naturalmente? Quantas vezes dizemos e mudamos o que falamos? Quantas escrevemos e reeescrevemos o que foi registrado? Por que nos "escritos religiosos" temos que admitir uma verdade acima de qualquer outra, se o que foi escrito foi propagado por várias pessoas e em épocas e locais diferentes?

Vejamos um pequeno exercício da "lógica divina". Se foi deus que criou todas as coisas, ele seria A CAUSA única. E as outras lógicas e modos de dizer existentes? Os efeitos que viram causas, as lógicas da experiência, as várias formas de indução (com base em exemplos quantificados no mundo) e dedução (com base em afirmativas ou premissas para se chegar a uma conclusão), as lógicas abdutivas (com base em vários fatos para se chegar na montagem de uma solução) - essas e várias outras formas de raciocinar e dizer sobre o mundo não valem quando se trata de deus?

O dizer ou linguajar sobre deus é autoritário, perverso, não admite qualquer contra-posição. Assume sua lógica e... acabou. Veja a imagem abaixo do blog UNA, através da qual podemos intuir uma realidade bem clara do dia-a-dia, entendendo o quanto religiosos exigem algo que tem que estar relacionado a sua CAUSA ÚNICA.