Sabendo que:
- está compreendido que estamos falando do discurso de religiosos neste blog e que
- antes de tudo, precisamos saber o que é uma persuasão, que nempre é feita nos diálogos dos religiosos através da compreensão, mas principalmente por meio de ameaças e apelos,
vamos agora nos deter no segundo tópico, que acho fundamental para qualquer estudo de linguagem e lógica, também na companhia dos exemplos perversos que a maioria dos religiosos insiste em propagar:
2) A diferença entre uma declaração e uma asserção (afirmação)
Uma asserção ou, como alguns lógicos simplesmente dizem, uma afirmação, é nada mais que uma declaração que pode assumir um valor verdadeiro ou falso, mas não ambos. É necessário se compreender que esta afirmação não precisa estar em concordância com ninguém. Em um debate entre ateus e religiosos, todos devem concordar no valor único de uma afirmação, que será verdadeiro ou falso e podem, inclusive, ter a mesma opinião sobre algumas afirmativas, até para se iniciar o debate. A maioria das pessoas concordaria que as seguintes declarações são ou verdadeira ou falsa:
a) "Dois mais três é igual a cinco"
b) "Há vida inteligente em outro planeta"
c) "É preciso praticar o bem"
Note que há valores identificados mais precisamente como o do item a, valores que as pessoas até concordam serem verdadeiro ou falso como o do item b, embora não tenham condições de provar, e valores pressupostos, embora a partir de termos vagos ou ambíguos, como "bem" no item c.
Portanto, o que importa em um discurso qualquer não são as afirmações tratadas isoladamente, pois muitas são até necessárias para que se mantenha ou inicie o debate. O problema em um discurso isolado ou em um diálogo é a maneira como desenvolvemos estas afirmações. Neste ponto, mais um conceito se faz necessário: o de argumento.
Pode-se definir em lógica informal o argumento como sendo uma série de afirmações, sendo que uma delas é a conclusão e as demais são as premissas. A conclusão é o objetivo do argumento, é a questão principal que se deseja atingir através da persuasão lógica expressa linguisticamente. A conclusão precisa ter um conjunto de razões identificadas durante o diálogo ou o discurso. O mais banal exemplo de argumento, desde quando os gregos estudaram lógica é: "Todo homem é mortal" "Sócrates é homem" "Portanto, Sócrates é mortal". A última das declarações é a conclusão, obtida das demais declarações, denominadas premissas. A ordem das afirmações em um argumento pode ser das mais diversas e em muitas situações há dificuldade de se descobrir o que é realmente a conclusão no meio das premissas - estudo ao qual nos dedicaremos em post mais adiante. Podemos ter como exemplo o desespero de um homem que viu o seu amigo e correu para dizer ao médico: "Doutor, meu amigo Sócrates está morrendo!" "Ele está sem respirar e teve uma parada cardíaca!". Nesse caso, a conclusão é a primeira afirmativa constatando a morte de Sócrates e as demais afirmativas sobre a parada respiratória e a parada cardíaca são as premissas que levam ao objetivo da conclusão.
Mas vamos ao que interessa, os vários conjuntos de afirmações cheios de baboseiras, ignorância, pedantismo e má-fé das ditas pessoas de fé, ou seja, vamos analisar os péssimos argumentos de que lançam mão grande parte dos religiosos. Como a quantidade de argumentos frágeis dessas pessoas é muito grande, e as consequências são várias, indo da mera ostentação de bobagens até a declaração de guerras, trarei por hora apenas três exemplos: um clássico sobre o argumento cíclico, um com mito popular retirado de um best-seller de auto-ajuda espiritual e um que prega o utilitarismo em detrimento da verdade. Vale a pena observar que há ainda as falas de religiosos que tentam persuadir, sem ao menos maus argumentos, como quando insistem autoritariamente e repetitivamente que o deus deles é o de todos ou que temos que acreditar em deus, pois ele é a origem de todas as coisas. Aos exemplos:
- Argumento cíclico: muitos religioso acreditam na Bíblia porque é a palavra de deus. Mas como sabem disso? Porque a própria Bíblia diz. Ah! E como a Bíblia não falha porque é sagrada e ela também fala que existe um deus que é onipotente e ele próprio foi que deu a luz necessária para que se fizesse a Bíblia e nós a lemos, então esse deus existe. A pobreza do argumento é avassaladora, pois, de qualquer ponto que se parta, se vai de uma premissa a ela mesma, sem acresecentar nada ao raciocínio, sem qualquer conclusão válida. Veja o gráfico que nos mostra Matt´s Notepad:
Aliás, em se tratando do deus judaico cristão da bíblia, são bastante interessantes os argumentos sobre a criação do mundo. Apesar de alguns religiosos falarem que muita coisa depende da interpretação, fica muito difícil buscar amparo em um texto que fala da criação do dia e da noite e só depois da criação do sol, nesta ordem. Mas se o religioso acreditar que houve realmente dia e noite sem sol (sic), então sua premissa pode ser aceita. Veja só essa estorinha bem humorada:
- Argumento com mito popular: os livros de auto-ajuda já são reconhecidos por repetirem clichês, às vezes reescritos de outra forma, mas com o mesmo conteúdo. Expressões que fazem apologia do pensamento positivo para se ter grande sucesso na vida ou que afirmam que usamos apenas 10% do cérebro não têm qualquer respaldo científico, mas reforçam os apelos populares. Não é a toa que tanto vendem. Quando um livro dessa qualidade junta a auto-ajuda para religiosos com a promessa de um consumo rápido para grandes questões da filosofia, como o próprio título promete em "Explicando Deus numa corrida de táxi" de Paul Arden, já pode-se imaginar as pérolas. Uma passagem desta obra quer dar a concluir que deus existe porque "quando rezamos conseguimos o que queremos". Nada mais apropriado para quem não quer se deter no simples fato de que, depois de muitos fracassos, as pessoas podem denominar sucesso qualquer coisa que aconteça depois de anos de oração. Ou seja, depois de muito tempo e esforço pessoal, oportunidades aproveitadas, ajudas de outras pessoas, melhoria das condições sociais e econômicas etc, quem recebe o crédito, dentre as várias premissas possíveis, é a oração por pura e simples declaração do autor.
Ver mais em Filosofando com o martelo.
- Argumento utilitarista: "se você acreditar na existência de deus, será feliz na eternidade. Se deus não existir nesse caso, você não perde nada. Se você não acreditar, contudo, será condenado para sempre". Esse tipo de argumentação tenta mostrar algo supostamente útil em que você só saia na vantagem, não há qualquer preocupação em se chegar a uma conclusão verdadeira. Além disso, ignora o fato de que as pessoas não mudam suas crenças imediatamente devido a algo útil. Em outras palavras, o mais que óbvio: uma pessoa não vai acreditar no que não acredita só por dizer que é crente.
what is the truth? do you recognize it?
ResponderExcluiroi anônimo, o que é a verdade exatamente é realmente difícil de comprovar, mas lembre-se que as afirmações (asserções) são frases que as pessoas dão um valor de verdade (V ou F). o problema dos religiosos é supostamente darem esses valores às afirmações, mas não haver nenhum percurso nesse sentido, ou seja, em vez de se concluir V ou F, o que existe são ameaças, apelos emocionais, argumentos sem qqer conclusão, desprezo de diversos fatos que ocorrem constantemente e consideração só daqueles que acreditam e por aí vai...
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