Ainda revendo o que tratamos: explicamos o próposito deste blog sobre a análise de discursos de religiosos, entendemos o que são afirmações, persuasões, asserções e argumentação. Vimos como esses quatro conceitos são desenvolvidos quando o assunto é religião nas manifestações de pessoas que têm fé em deus. Também tratamos de 3 exemplos claros de formas de argumentar dos religiosos (cíclica, com apelo popular e utilitarista), bem ou mal intencionadas, mas que mostram a pobreza da conversação dessas pessoas, que dizem explicar algo, mas na verdade estão lançando mão de outras estratégias como a ameaça e o preconceito expressos linguisticamente.
Resumi isto porque vamos começar a falar dos vários tipos de argumentação de raciocínios de religiosos, o que despenderá várias postagens, mas é importante que, antes, tenhamos uma noção do que foi relembrado no parágrafo anterior. Além disso, há um fator fundamental para se compreender e que é absolutamente crucial quando tratamos de lógica informal e que os conceitos anteriores também ajudam: quando falamos de algum/alguns sujeito/sujeitos, de quem realmente estamos falando? A pergunta não é boba, embora aparentemete seja. Veja nos exemplos seguintes a explicação.
Quando se fala "Os ateus são pessoas sem limite" de quem estamos falando? De todos os ateus que existem na face da terra? Das pessoas que você considera ateus, mas que elas próprias não se consideram? Daqueles que você não acha que são ateus, mas que realmente são? Você pode ouvir alguém dizer que é ateu - isso acontece muito - e até dizer depois "você falou isso, mas no seu interior você acredita" ou "você diz isso para apenas aparecer, mas no fundo você acredita". Então, repensando a frase "Os ateus são pessoas sem limite", você está falando de pessoas que são algo ou têm determinado atributo de acordo com suas convicções, ponderações ou conforme as pessoas se declaram? Além disso, há as condições temporais: pessoas que eram religiosas e viraram ateus ou vice-versa, como seriam classificadas durante toda sua vida? Elas seriam essencialmente o quê? Veja nas tiras abaixo o que são todos de um certo ponto de vista.
A discussão do parágrafo anterior está na base do que foi necessário para se passar de uma lógica de predicados para uma lógica proposicional. Em resumo, de uma lógica através da qual podíamos constatar a verdade dos argumentos, relacionando todas as asserções e verdades chegando a uma conclusão, para uma lógica simbólica e estrutural que precisamos definir melhor as condições do que se fala, o que realmente se diz, a quantidade de pessoas que realmente estamos falando, onde elas estão etc. Ficará mais claro através de mais alguns exemplos a seguir.
1) "João é ateu" - aqui sabe-se quem é a pessoa e a relacionamos diretamente a um atributo, podendo-se constatar a verdade da afirmação, de acordo com a definição de ateu que se pensa no momento. Em uma lógica de predicados verifica-se se o atributo dado ao indivíduo é verdadeiro. Em uma lógica proposicional, sabe-se que João é um indivíduo X que tem um atributo A (ateu) e verifica-se se X é A. Nesse caso, a verdade ou falsidade da afirmação é universal e atemporal.
2) "Ateus são pessoas sem limites" - há indivíduos (ateus) com atributos (sem limites) na lógica de predicados. Na lógica proposicional existe um grupo com valores (todos os X de um grupo (ateus)) com atributos A (sem limites). No caso da lógica proposicional, falamos do grupo e não de indivíduos.
3) "Vamos todos rezar um pai nosso" - em uma reunião de grupo, quando alguém diz isso está se referindo às pessoas que estão no momento, a cada um dos indivíduos. Assim, nesta situação a lógica de predicados e proposicional coincide porque o universo dos indivíduos é aquele que está ali.
Considera-se que as situações 2 e 3 são mais problemáticas, pois em 2 não define-se realmente de quem se está falando e, em 3, força-se um situação para que as pessoas façam algo, independentemente das suas descrenças ou outros tipos de crença (xintoístas, muçulmanos, umbandistas etc). Aliás, outro dia um amigo evangélico me disse que o ruim para ele era quando um grupo tinha que rezar o pai nosso e depois se emendava dizendo "e agora uma ave maria". Sabe-se que os evangélicos não têm a mesma crença em maria como os católicos. Esses crentes católicos, então, forçam a barra, criando um TODOS daqueles grupos sem considerar os INDIVÍDUOS com suas crenças e discrenças diferentes. Há uma explicação sobre isso no que se chama o quadrado de Aristóteles. Exemplificaremos de acordo com a aplicação que estamos fazendo em nossas análises.
A = "Todo ateu é..." (afirmação universal)
E = "Nenhum ateu é..." (negação universal)
I = "Algum ateu é..." (afirmação particular)
O = "Algum ateu não é..." (negação particular)
As únicas afirmações totalmente contraditórias entre si são entre A e O e entre E e I. Em outras palavras, as que não podem ser verdadeiras e falsas ao mesmo tempo. Entre A e E, por exemplo, podemos dizer "Todo ateu é imoral" e "Nenhum ateu é imoral", ambas serem falsas, pois pode ser falso todos serem e não serem imorais, já que podemos considerar os ateus em relação a amoralidade, mas não em relação à imoralidade - nada termos a dizer sobre moralidade. Já dizer ao mesmo tempo que ateus são imorais e, dentro deste conjunto, algum não ser (entre E e I), é, obviamente, impossível.
Para resolver essas questões, um filósofo chamado Frege usou a lógica para descobrir as bases da aritmética, criando uma definição simbólica mais ampla para as asserções, definindo símbolos específicos para TODOS, NENHUM, ALGUM, NÃO, E, SE, dentre outras condições específicas, criando exatamente uma lógica proposicional simbólica. Um outros filósofo chamado Russel escreveu uma carta para Frege, mostrando o maior paradoxo da história da lógica e muito do que se pretendia para formular uma lógica simbólica teve que ser mudado. A história é longa e interessante, mas não cabe aqui. O que é mais importante é que este fato fez com que a lógica como um estudo do raciocínio em geral passasse a ser as bases da matemática e da linguagem e depois fosse aplicada em várias outras áreas...
Como estamos nos atendo a uma pragmática da lógica, a um estudo da lógica informal aplicado às afirmações de religiosos, o que podemos concluir é o seguinte:
- afirmações como "TODOS/NENHUM ateus/religiosos" são altamente perigosas, mas às vezes são disfarçadas sem que usemos TODOS e falemos OS. Por isso, quando falo aqui de religiosos, não estou considerando todos, mas certamente a maior parte, constatando tal fato pela experiência pessoal e pelas afirmações que vejo divulgadas. Religiosos muito comumente, ao ouvirem que alguém é ateu, duvidam, perguntam a razão disto, dizem que no fundo os ateus acreditam em deus, forçam a barra dizendo que o deus é de todos sejam ateus ou não etc. Nunca vi um ateu dizendo que o crente é ateu, ou seja, falando forçosamente que ESTE OU AQUELE pertence ao seu grupo de TODOS. Todos quem? Nesse quesito, religiosos são claríssimamente autoritários.



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